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O que a Igreja celebra no Domingo da Divina Misericórdia
O segundo domingo da Páscoa e o convite à confiança no amor de Deus
Um domingo dentro da Páscoa
O Domingo da Divina Misericórdia não é uma festa isolada. Ele acontece no segundo domingo da Páscoa, dentro dos cinquenta dias que a Igreja celebra como se fossem um só dia de alegria. As Normas Universais sobre o ano litúrgico ensinam que esse tempo deve ser vivido com exultação, como “um grande domingo” (n. 22). Os oito primeiros dias formam a chamada oitava da Páscoa e são celebrados como solenidades do Senhor (n. 24).
Por isso, quando celebramos a Divina Misericórdia, não estamos mudando de assunto. Estamos contemplando um aspecto central do mistério pascal: o Cristo que morreu e ressuscitou é o mesmo que se apresenta aos discípulos e lhes oferece a paz e o perdão. A misericórdia não é um tema à parte. Ela é o coração da Páscoa.
A cena do Evangelho
O Evangelho proclamado nesse domingo é sempre o de João 20,19-31. Jesus aparece aos discípulos no dia da ressurreição, mostra-lhes as mãos e o lado, e diz: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, eu também vos envio.” Em seguida, sopra sobre eles e lhes dá o poder de perdoar pecados.
Tomé não estava presente nessa primeira aparição. Quando os outros lhe contam o que viram, ele resiste. Só acredita oito dias depois, quando o próprio Jesus o convida a tocar suas chagas. É então que Tomé faz a mais alta profissão de fé de todo o Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus!”
Essa cena revela algo importante. Jesus não repreende Tomé com dureza. Vai ao encontro da dúvida dele, mostra as feridas, oferece confiança. A misericórdia de Deus se manifesta assim: não espera que estejamos prontos. Ela nos busca onde estamos.
Misericórdia e reconciliação
A Exortação Apostólica Verbum Domini, de Bento XVI, lembra que a Palavra de Deus é, por natureza, palavra de reconciliação. Nela, Deus reconcilia consigo todas as coisas. O perdão misericordioso de Deus, encarnado em Jesus, reabilita o pecador (cf. Verbum Domini, n. 61).
Há uma ligação profunda entre o Evangelho desse domingo e o sacramento da Reconciliação. Jesus sopra sobre os apóstolos e diz: “A quem perdoardes os pecados, serão perdoados.” Esse gesto do Ressuscitado é a raiz do sacramento da confissão. Não é por acaso que a Igreja nos convida, nesse dia, a buscar o perdão sacramental com renovada confiança.
A Verbum Domini recomenda que o fiel se prepare para a confissão meditando a Sagrada Escritura, e que comece o sacramento com a escuta de um trecho bíblico (cf. n. 61). A Palavra de Deus ilumina a consciência, ajuda a reconhecer o pecado e, ao mesmo tempo, desperta a confiança na misericórdia do Pai.
A origem desta celebração
Foi São João Paulo II quem instituiu o Domingo da Divina Misericórdia para toda a Igreja, no ano 2000, durante a canonização de Santa Faustina Kowalska. A religiosa polonesa registrou em seu diário as revelações em que Jesus pedia uma festa dedicada à sua misericórdia, celebrada justamente no segundo domingo da Páscoa.
É importante notar que a Igreja, ao acolher esse pedido, não criou algo estranho à sua tradição. A liturgia desse domingo já trazia, há séculos, os textos sobre a aparição aos discípulos e o perdão dos pecados. O que São João Paulo II fez foi dar um nome a algo que a liturgia já celebrava: o rosto misericordioso do Ressuscitado.
A Constituição Sacrosanctum Concilium ensina que a Igreja, ao longo do ciclo anual, desenvolve todo o mistério de Cristo (cf. n. 102, 107). O Domingo da Divina Misericórdia é um exemplo vivo disso. Ele nos ajuda a contemplar, dentro da grande celebração pascal, um aspecto que toca diretamente a vida de cada batizado: Deus não desiste de nós.
Como viver esse dia
Não é preciso fazer nada extraordinário. A Igreja nos pede o essencial: participar da Missa, ouvir a Palavra com atenção, receber a Eucaristia, buscar, se possível, o sacramento da Reconciliação. O próprio Jesus, no Evangelho, aparece aos discípulos reunidos. A comunidade que se reúne para a celebração é o lugar privilegiado do encontro com o Ressuscitado.
Quem desejar, pode também rezar o terço da Divina Misericórdia, devoção transmitida por Santa Faustina. Mas o mais importante é a disposição interior: deixar-se alcançar pela misericórdia de Deus e tornar-se, por sua vez, sinal dessa misericórdia para os outros. Como recorda a Verbum Domini, a escuta da Palavra desperta a caridade e a justiça para com todos, sobretudo para com os pobres (cf. n. 103).
O Domingo da Divina Misericórdia é um convite simples e profundo: confiar. Confiar que o amor de Deus é maior que qualquer pecado, maior que qualquer dúvida, maior que qualquer ferida. E que esse amor nos é oferecido, agora, no Cristo vivo que se faz presente na sua Igreja.
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